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Os Contos da menina-Mulher

Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Estes são os meus pontos sobre saúde, culinária e lifestyle. Aqui toda eu sou vírgulas, reticências e, no extremo, pontos de exclamação ou mesmo um ponto final!

Qua | 24.08.16

Da depressão - A Vida num Degrau (livro):

Ontem recebi em casa o livro "A Vida num Degrau" que ganhei num passatempo promovido pela página Essenciais por Marta V. e pela editora Pactor.

Quando resolvi participar neste passatempo a finalidade não foi só ganhar mais um livro para a minha coleção. Por muito que eu adore livros com testemunhos reais. A finalidade foi aceitar ler sobre uma doença que faz parte da minha vida, há mais de 20 anos.

Realmente é como viver num degrau. Sempre divididos entre dar um passo para cima, ou sentirmo-nos, de novo, a descer as "escadas interiores", até à nossa "cave".

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A depressão é um tabu. É mal compreendida. É minimizada e exagerada, ao mesmo tempo.

Eu tenho depressão crónica.

 

Tive a minha 1ª depressão aos 9 anos, resultado de uma doença que me afeta (ainda hoje) o sistema imunitário. Do alto da minha ignorância infantil e da falta de noção dos meus pais (por muita vontade que eles tivessem de me ajudar), achei que o melhor a fazer, o mais "fixe", era enganar os psicólogos a que me levavam. Entrava na sala, sabia-me a ser avaliada, dizia o que eles esperavam ouvir, portava-me muito bem e no final, lá vinham eles, de sorriso nos lábios, minimizar a situação e dizer à minha mãe "que isto passava".

Tive esgotamentos nervosos aos 15 e aos 16 anos. Por exigir demais de mim. Sabia que só eu mesma tinha que puxar por mim, porque mais ninguém ia puxar. Sabia que tinha que ser a melhor aluna, porque ninguém espera que uma aluna com PC, no ensino regular, seja a melhor aluna. Suportei bullying e professores que me humilhavam e discriminavam, sempre sendo a melhor. Mesmo que isso significasse não dormir, chorar todos os dias e só ter os misfits da escola como amigos. E o mesmo se aplicava ao meu único hobby: a natação. Ser a melhor, nadar mais, chegar mais cedo, ficar mais 10 minutos, cada semana mais piscinas nadadas. O engraçado aqui foi que, tendo 4 propostas para competir, fugi sempre de ser uma nadadora "profissional". Coloquei sempre o sonho dos meus pais - e a minha expectativa pessoal - de ser a 1ª licenciada da família, em primeiro lugar.

 

Durante os anos de jovem adulta, incorri em vários hábitos um pouco destrutivos, para não me deixar cair na depressão. Não comer, não dormir, falar sozinha. Ver toda e qualquer rejeição como um ataque pessoal. Cuidar de tudo e de todos para me sentir útil. E é o que ainda faço.

Claro que resvalei para o lugar mais negro da minha vida quando a faculdade acabou. Demorei a conseguir emprego. Acabei a pagar para ser "voluntária" e ter qualquer coisa para fazer. Tudo isto enquanto, aí sim, os meus pais se tornaram loucamente exigentes - maus hábitos que eu alimentei, para me sentir amada... - e vivia para os servir (sim, a palavra é forte, mas é mesmo essa). Nunca sendo boa profissional o suficiente porque lhes tinha "custado dinheiro" e não estava a ter utlidade profissional.

Aos 23 caí na minha 2ª depressão profunda. cliché dos clichés, resultado do meu 1º desgosto amoroso "sério". Sim, a minha auto-estima era (e é) tão fabulosa(mente baixa) que só aos 23 me permiti namorar (depois de ter arrumado os estudos, claro) e fui na cantiga mais antiga do livro: o falso Principe Encantado. Aí sim, caí numa depressão que eu própria me permiti reconhecer. "Perdi" quase um ano da minha vida, procurei ajuda psicológica sem tentar enganar niguém, mas não resultou. Fui "salva" pela minha melhor amiga, a pessoa que "ganhei" no meio de toda a confusão. Tudo enquanto fui sendo atacada pela minha própria mãe, por ter saído de debaixo das asas dela e já não ser "a filha perfeita".

 

Desde 2010 que, vejo agora,  passei a viver num misto de ansiedade, pânico, baixa auto-estima, luta pelas aparências. luta profissional e medo, medo de tudo, ao ponto de não saber aproveitar a minha vida.

Em finais de 2011 voltei a ser deixada, ponto final de um namoro violento e abusivo.

*(olá! estás bomzinho? Eu sei que volta e meia vens cá ler, ou pedes a "alguém" que te leia o que se passa aqui. Nope, não vou deixar de dizer a quem queira ouvir que és um psicopata violento e perigoso, por muito que tenhas comprado a máscara nova de pai de família)*

Nessa época abri as portas à terapia, psicoterapia, pura e dura. Conheci a A. "Escondi" de quem me rodeava todo o trabalho porque passei: o choro, o pânico, o necessitar de companhia de amigos para conseguir adormecer certas noites, as idas à polícia. Preocupei-me em desabar em cima da A. e só da A. E que os outros só vissem os resultados.

 

Os resultados foram bons, fortes, consistentes. Levaram-me até ao m-R. Levaram-me até ao Mestrado. Levaram-me a saber lidar com as inconstâncias profissionais da minha área e a sobreviver aos desempregos.

Mas, lá está, a minha depressão é crónica. Consegui viver com os ensinamentos da A. por mais um ano. Desde 2013 que entrei em espiral. E, neste momento vivo assim.

Não escrevo esta frase que para uns é assustador, e para outros é um pedido de atenção, por escrever. Escrevo para me aperceber. Escrevo para me aceitar.

 

Ontem este livro, que secretamente pedi, quando me inscrevi no passatempo, chegou lá a casa.

Esta é a foto que lhe tirei mal o recebi.

Na verdade, interessa-me muito lê-lo. Quero ouvir a voz de quem vive nas mãos destes sentimentos e luta para sair.

Eu? Estou a fazer a minha parte.

 

4 anos depois, voltei a falar com a A. Atirei o barro à parede. Pedi-lhe ajuda. Ela que é e será a "minha terapeuta". Perdi a vergonha e pedi-lhe ajuda. Sim, ela está em Gaia e eu aqui. Mas não desistimos uma da outra. Voltando ao bom velho tempo das relações à distância... temos consultas com 300km de permeio. Não sabemos no que vai dar. Mas sabemos que estamos a tentar - sim, porque também é novidade para ela.

4 anos depois. Já na década dos 30, aprendi a reconhecer que a minha essência é depressiva. Que não são só as circunstâncias que me pesam. Aos 30 anos estou de novo a ser ajudada. Aos 30 anos aprendi que não é vergonha nenhuma precisar de psicoterapia.

E estou aqui. Em luta.

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